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"Yin" e "Yang"
Capítulo IV do livro "A Grande Tríade" de
René Guénon.
A tradição extremo-oriental, em sua parte
propriamente cosmológica, atribui capital importância aos dois
princípios, ou, se se preferir, às duas "categorias" que designa
pelos nomes de yang e yin: tudo que é ativo,
positivo ou masculino é yang, tudo que é passivo,
negativo ou feminino é yin. Essas duas categorias estão
ligadas simbolicamente à luz e à sombra. Em todas as coisas, o
lado claro é yang e o escuro é yin, mas um não
existindo nunca sem o outro, eles aparecem como complementares
muito mais do que como opostos 1.
Esse sentido de luz e sombra encontra-se especialmente, com sua
acepção literal, nas determinações dos lugares geográficos
2, e o sentido mais geral em
que essas mesmas denominações de yang e yin se
estendem aos termos de todo complementares tem inúmeras
aplicações em todas as ciências tradicionais
3.
Segundo o que já dissemos, é fácil compreender que yang é
o que procede da natureza do Céu e yin o que procede da
natureza da Terra, desde que é do complementarismo primeiro do
Céu e da Terra que derivam todos os outros complementarismos
mais ou menos particularmente, e, por isso, pode-se ver de
imediato a razão da assimilação desses dois termos com a luz e a
sombra. Com efeito, o aspecto yang dos seres corresponde
ao que neles há de "essencial" ou de "espiritual", e sabe-se que
o Espírito é identificado com a luz pelo simbolismo de todas as
tradições; por outro lado, seu aspecto yin é aquele pelo
qual se liga à "substância", e esta, devido à "ininteligibilidade"
inerente à sua indistinção ou a seu estado de pura
potencialidade, pode ser definida propriamente como a raiz
obscura de toda existência. Desse ponto de vista, pode-se dizer
ainda, utilizando a linguagem aristotélica e escolástica, que
yang é tudo aquilo que é "em ato" e yin tudo o que é
"em potência", ou que todo ser é yang do ponto de vista
em que é "em ato" e yin do ponto de vista em que é "em
potência", visto que esses dois aspectos encontram-se reunidos
necessariamente em tudo o que é manifestado.
O Céu é inteiramente yang e a Terra inteiramente yin,
o que equivale a dizer que a Essência é ato puro e a Substância
potência pura; mas são assim no estado puro exclusivamente
enquanto são os dois pólos da manifestação universal; e, em
todas as coisas manifestadas, o yang jamais existe sem o
yin e este sem o yang, uma vez que a sua natureza
participa ao mesmo tempo do Céu e da Terra
4. Se considerarmos
especialmente o yang e o yin em seu aspecto de
elementos masculino e feminino, poder-se-á dizer que, em razão
dessa participação, todo ser é "andrógino" num certo sentido e
numa certa medida e que o é, além disso, tanto mais
completamente quanto mais equilibrados nele são esses dois
elementos. O caráter masculino ou feminino de um ser individual
(dever-se-ia, mais rigorosamente, dizer principalmente masculino
ou feminino) pode, portanto, ser considerado como resultante da
predominância de um ou de outro. Seria naturalmente fora de
propósito aqui tratar de desenvolver todas as conseqüências que
se podem tirar dessa observação, mas basta um pouco de reflexão
para entrever, sem dificuldade, a importância que são
suscetíveis de apresentar, em particular, para todas as ciências
que se relacionam com o estudo do homem individual dos diversos
pontos de vista de que este pode ser considerado.
Vimos antes que a Terra aparece por sua face "dorsal" e o Céu
por sua face "ventral". Por essa razão, o yin está "no
exterior", enquanto o yang está "no interior"
5. Noutras palavras, as
influências terrestres, que são yin, são exclusivamente
sensíveis, e as influências celestes, que são yang,
escapam aos sentidos e só podem ser percebidas pelas faculdades
intelectuais. Há aí uma das razões pelas quais, nos textos
tradicionais, o yin é nomeado, em geral, antes do yang,
o que pode parecer contrário à relação hierárquica que existe
entre os princípios a que correspondem, isto é, o Céu e a Terra,
na medida em que são o pólo superior e o pólo inferior da
manifestação. Essa inversão da ordem dos dois termos
complementares é característica de certo ponto de vista
cosmológico, que é também o do Sanquia hindu, em que
Prakriti figura, do mesmo modo, no começo da enumeração dos
tattwas e Purusha no fim. Esse ponto de vista, com
efeito, procede, de algum modo, "remontando", da mesma forma
como a construção de um edifício começa pela base e termina no
ponto mais alto, parte do que é mais imediatamente perceptível e
vai na direção do que é mais oculto, isto é, vai do exterior
para o interior, ou do yin para o yang. Nisso, ele
é o inverso do ponto de vista metafísico, que, partindo do
princípio para chegar às conseqüências, vai, ao contrário, do
interior para o exterior. E essa consideração do sentido inverso
mostra bem que esses dois pontos de vista correspondem
propriamente a dois graus diferentes de realidade. De resto,
vimos noutro lugar que, no desenvolvimento do processo
cosmogônico, as trevas, identificadas ao caos, estão "no
começo", e a luz, que ordena esse caos para tirar dele o Cosmos,
está "depois das trevas" 6;
isso quer dizer ainda que, desse ponto de vista, o yin
está, com efeito, antes do yang
7.
Considerados separadamente um do outro, o yang e o yin
têm por símbolos lineares o que chamamos as "duas determinações"
(eul-i), quer dizer, o traço contínuo e o traço
interrompido, que são os elementos dos trigramas e dos
hexagramas do Yi-king, de tal modo que estes representam
todas as combinações possíveis desses dois termos, combinações
que constituem a integralidade do mundo manifestado. O primeiro
e o último hexagrama, que são Khien e Khouen
8, são formados,
respectivamente, de seis traços contínuos e de seis traços
interrompidos; representam, portanto, a plenitude do yang,
que se identifica com o Céu, e a do yin, que se
identifica com a Terra; e é entre esses dois extremos que se
colocam todos os outros hexagramas, em que o yang e o
yin se mesclam em proporções diversas, e que correspondem
assim ao desenvolvimento de toda a manifestação.

Fig. 1
Por outro lado, esses mesmos dois termos,
yang e yin, quando se unem, são representados pelo
símbolo que é chamado, por essa razão, yin-yang (fig. 1)
9, e que já estudamos
noutra obra do ponto de vista em que representa mais
particularmente o "círculo do destino individual"
10. De conformidade com o
simbolismo da luz e da sombra, a parte clara da figura é yang
e a parte escura é yin; e os pontos centrais, escuro na
parte clara e clara na parte escura, lembram que, na realidade,
o yang e o yin não existem nunca um sem o outro.
Na medida em que o yang e o yin, embora unidos, já
são distintos (e nisso é que a figura é exatamente yin-yang),
é o símbolo do "Andrógino" primordial, visto que seus elementos
são os dois princípios masculino e feminino; é também, segundo
outro simbolismo tradicional mais geral ainda, o "Ovo do Mundo",
cujas duas metades, quando se separarem, serão respectivamente o
Céu e a Terra 11. A
mesma figura, por outro lado, considerada como formando um todo
indivisível 12, o que
corresponde ao ponto de vista principal, torna-se o símbolo de
Tai-ki, que surge assim como a síntese do yin e do
yang, mas somente se se precisar que essa síntese, sendo
a Unidade primeira, é anterior à diferenciação de seus
elementos, portanto absolutamente independente destes; de fato,
só se pode considerar yin e yang em relação ao
mundo manifestado, que, como tal, procede de todo das "duas
determinações". Esses dois pontos de vista, segundo os quais o
símbolo pode ser considerado, resumem-se na fórmula seguinte:
"Os dez mil seres são produzidos (tsao) por Tai-i
(que é idêntico a Tai-ki), modificados (hua) por
yin-yang, pois todos os seres provêm da Unidade principal
13, mas suas
modificações no "devir" devem-se às ações e reações recíprocas
das "duas determinações".
1.
Não se deveria, portanto, interpretar aqui essa distinção de luz
e sombra em termos de "bem" e "mal", como se faz às vezes
noutros lugares, por exemplo no masdeísmo.
2.
Pode parecer estranho, à primeira vista, que o lado yang
seja a vertente sul de uma montanha, mas o lado norte de um vale
ou a margem norte de um rio (sendo yin naturalmente
sempre o lado oposto àquele); mas basta considerar a direção dos
raios solares, vindos do sul, para dar-se conta de que, de fato,
em todos os casos, é justamente o lado iluminado que é assim
designado como yang.
3. A medicina tradicional
chinesa, em particular, é, de certa forma, baseada por inteiro
na distinção entre yang e yin: qualquer doença é
devida a um estado de desequilíbrio, isto é, a um excesso de um
desses dois termos em relação ao outro. É necessário, portanto,
reforçar esse último para restabelecer o equilíbrio e atinge-se
desse modo a doença em sua própria causa, em vez de limitar-se a
tratar dos sintomas mais ou menos exteriores e superficiais,
como a medicina profana dos ocidentais modernos faz.
4. Por essa razão, de acordo
com uma fórmula maçônica, o iniciado deve saber "descobrir a luz
nas trevas (o yang no yin) e as trevas na luz (o
yin no yang)".
5. Expressa dessa forma, a
coisa é imediatamente compreensível pela mentalidade
extremo-oriental; mas devemos reconhecer que, sem as explicações
que demos antes a esse respeito, a ligação assim estabelecida
entre as duas proposições desconcertaria, por sua própria
natureza, de modo singular, a lógica especial dos ocidentais.
6. Aperçus sur
l'lnitiation, cap. XLVI.
7. Podemos encontrar algo
análogo a isso no fato de que, segundo o simbolismo do
encadeamento dos ciclos, os estados inferiores da existência
surgem como antecedentes em relação aos estados superiores; é
por isso que a tradição hindu representa as Asuras como
anteriores às Dêvas e descreve, por outro lado, a
sucessão cosmogônica das três gunas como se se efetuasse
na ordem tamas, rajas, sattwa, indo,
portanto, da escuridão para a luz (ver Le Symbolisme de la
Croix, cap. V, e também L'Ésotérisme de Dante, cap.
VI).
8. Do mesmo modo também que
o primeiro e o último dos oito trigramas (koua), que
compreendem também três traços contínuos e três traços
descontínuos; cada hexagrama forma-se pela superposição de dois
trigramas semelhantes ou diferentes, o que dá ao todo sessenta e
quatro combinações.
9. Coloca-se habitualmente
essa figura no centro dos oito trigramas dispostos
circularmente.
10. Le Symbolisme de la
Croix, cap. XXII. Nesse sentido, a parte yin e a
parte yang representam, respectivamente, a marca dos
estados inferiores e o reflexo dos estados superiores em relação
a um dado estado da existência, tal como o estado individual
humano, o que se coaduna estritamente com o que indicávamos há
pouco sobre a relação de encadeamento dos ciclos com a
consideração do yin como anterior ao yang.
11. A figura considerada
plana correspondente à seção diametral do "Ovo do Mundo", no
nível do estado de existência em relação ao qual é considerado o
conjunto da manifestação.
12. As duas metades
delimitam-se por uma linha sinuosa, que indica uma
interpenetração dos dois elementos, enquanto que, se o fossem
por um diâmetro, poder-se-ia ver nisso de preferência uma
simples justaposição. Deve-se notar que essa linha sinuosa
forma-se de duas semicircunferências cujo raio é a metade do
raio da circunferência que forma o contorno da figura e cujo
comprimento total é, por conseguinte, igual à metade do
comprimento dessa circunferência, de modo que cada uma das duas
metades da figura é envolvida por uma linha igual em comprimento
à que envolve a figura total.
13. Tai-i é o Tao
"com um nome", que é "a mãe dos dez mil seres" (Tao-te-king,
cap. 1º). O Tao "sem nome" é o Não-Ser, e o Tao
"com um nome" é o Ser: "Se se deve dar um nome ao Tao
(embora ele não possa realmente ser nomeado), chamá-lo-emos
(como equivalente aproximativo) a Grande Unidade."